segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Meu nome é Sylvia e eu grito com minha filha......


...... eu juro que me esforço, juro que procuro não gritar, mas tem horas em que não dá! Ela me testa e está mega desobediente..... faz o que eu acabei de pedir pra não fazer olhando pra mim! 

Tá certo, o tema é meio repetitivo, fiz um post sobre paciência há pouco tempo, mas é que esse é um tema recorrente na minha vida de mãe, fazer o quê????

Eu nunca bati na Julia e pretendo nunca bater. Não foi falta de vontade. Na hora do sangue quente a gente bem pensa numas palmadas. Mas não acho justo. Eu sou maior e minha mão é pesada e ela está apenas tentando encontrar o lugar dela no mundo, encontrar a identidade dela e o meio mais óbvio é me desafiar e me desobedecer, já que sou a “autoridade” mais presente na vida dela. Um dia ela me deixou tão exasperada, fazendo tanta “coisa errada” que eu, na hora do sangue quente, pra não dar uma palmada nela, dei em mim, na coxa. Doeu pra caramba e ficou a marca dos meus dedos um tempão. Não me sinto nem um pouco orgulhosa da minha atitude, muito pelo contrário, mas a dor me fez acordar: e se tivesse sido nela? Tenho que me controlar, sempre! Mas em relação ao grito, é sempre mais difícil manter o controle.

Há algum tempo a revista Época trouxe uma reportagem sobre a “pedagogia do grito”.

Na atual geração de pais, em que as palmadas foram banidas do repertório educativo, elevar a voz se transformou no recurso mais usado para impor disciplina. Em toda parte. “Trabalho com milhares de pais e posso dizer, com certeza, que o grito é a nova surra”, afirma a terapeuta de família americana Amy McCready, organizadora do Positive Parenting Solutions, que dá cursos e aconselhamento para pais. “A maioria se sente sem ferramentas para disciplinar seus filhos e acaba gritando. Depois se sente culpada e passa por um período de autocontrole, mas acaba apelando para os berros novamente, criando um padrão familiar.” 

É exatamente o que acontece comigo, me sinto super culpada, passo o dia mal. Aí começo a me controlar, mas dura pouco.

As educadoras americanas Devra Renner e Aviva Pflock, autoras do livro Mommy guilt (Culpa de mãe), fizeram uma pesquisa com 1.300 pais sobre o que os deixava mais culpados no dia a dia doméstico. Dois terços apontaram “gritar com as crianças” – mais que faltar ao trabalho ou esquecer uma reunião escolar. “Levantar a voz é a reação mais fácil e rápida, aquela que todos os pais cometem. E eu me incluo entre eles”, diz Aviva, mãe de três filhos com idade entre 8 e 17 anos. (...)

(...) Os críticos do grito paterno afirmam que ele assusta a criança sem ter efeito pedagógico. “Quando você grita com seu filho, ele não assimila suas palavras. Ouve o volume de sua voz e sente sua raiva”, diz Amy McCready. Segundo ela, a criança pode até obedecer na hora, mas não há efeitos de médio e longo prazos. “Não há aprendizado. Repare como no dia seguinte você provavelmente berrará as mesmas coisas”, diz. Logo, o grito paterno é mais um instrumento de correção ou apenas uma explosão emocional? “Nos dias de hoje, ele revela perda de controle”, diz Anne Lise Scapatticci, psicanalista infantil e doutora em saúde mental pela Escola Paulista de Medicina. Para ela, o diálogo é a melhor forma de educar, mas a criança precisa lidar com a ideia de que pais também ficam nervosos, irritados ou cansados.

“Mesmo pequena, ela é capaz de entender as emoções dos outros. Especialmente quando depois do grito existe uma boa conversa ou um pedido de desculpas.”(...)

Isso eu faço, peço desculpas a Julia sim, mas falo o que me irritou, o que estava errado no comportamento dela para que ela aprenda.

(...) O conceito de bom pai ou de boa mãe é construído pela cultura de cada lugar e cada período. E é flexível – desde que não coloque em risco a integridade física e mental das crianças. A terapeuta familiar Magdalena Ramos, mãe de duas filhas e avó de quatro netos, professora da Universidade Católica de São Paulo por 33 anos, lembra que as crianças são criaturas resistentes. Não é um par de gritos teatrais de uma mãe nervosa que vai traumatizá-las. O problema, diz a psicanalista argentina, é a repetição e a padronização do comportamento agressivo. “O grito tem de ser a exceção”, afirma. “Se ele se tornar a norma na relação entre pai e filho, se os pais estão sempre alterados, talvez seja hora de procurar ajuda profissional.” Magdalena diz que os pais modernos são estressados (porque trabalham demais, porque têm pouco tempo livre) e, consequentemente, na relação com as crianças alternam impaciência, gritos e culpa.

Muita culpa. Repreensões são ditadas menos pelo comportamento da criança que pelo estado de espírito dos adultos. Se os pais estão tranquilos (ou sentindo-se culpados), pode. Se eles estão nervosos, não pode. “Isso confunde as crianças”, diz a tarapeuta. “Estimula um comportamento de barganhar. E gritar.”

O.k., os pais precisam se acalmar. Eles também precisam conversar com os filhos, mesmo pequenos, e procurar ser claros sobre o que eles podem e não podem fazer. E manter-se firme. Mas, evitados a violência e os excessos verbais, observada a coerência, é preciso confiar em si mesmo e em sua capacidade de amar e educar. Um dos motivos pelos quais havia menos gritos domésticos no passado é que existia em casa uma autoridade segura de si e de seus procedimentos. Os pais de hoje perderam não apenas o direito moral de bater, falta-lhes também a convicção de quando punir com palavras. Sabem muito mais que seus pais e avós sabiam sobre educação de crianças, mas perderam a autoconfiança. E isso precisa ser recuperado. “A forma de ser pai ou mãe está, antes de tudo, ligada ao autoconhecimento e ao conhecimento do próprio filho”, diz a escritora nova-iorquina Amy Benfer.

Muito fácil falar, muito difícil fazer. Autoconfiança e autoconhecimento não são coisas que se compram na esquina. Antes mesmo da Julia nascer eu já me perguntava como iria encarar o desafio de educá-la. Como eu conseguiria manter a disciplina de forma coerente e amorosa. E depois de mais de dois anos no papel de mãe, só consegui concluir que é uma tarefa extremamente difícil, que todos os dias eu aprendo, que muitas vezes escorrego, mas que tudo serve para o meu crescimento e para o dela também. E todo dia eu tento não gritar, algumas vezes eu consigo!
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3 comentários:

Fabiana Sales disse...

Fiquei muito aliviada com a sua postagem, pois compartilho com você tudo que escreveu. como é difícil na prática educar os filhos, e ao mesmo tempo aprendemos com eles.

Syl disse...

ai Fabiana, é isso mesmo: é um desafio diário, mas a gente aprende tanto....... principalmente a sermos pessoas melhores! Mas é isso mesmo, não existe aprendizado fácil, sem esforço, né?

Ana Lucia Amorim de Brito disse...

Seu post foi de grande ajuda...obrigada.