terça-feira, 2 de novembro de 2010

A hipocrisia do politicamente correto


Nunca gostei dessa onda de politicamente correto. Acho hipocrisia de americano. Não adianta deixar de chamar uma pessoa negra de negra mas continuarmos a tratá-la como um ser inferior. Não adianta inventar nomes politicamente corretos pra designar deficiências físicas ou mentais e continuarmos a segregar essas pessoas, seja por falta de acesso nas cidades, por falta de inclusão nas escolas ou por qualquer outro tipo de preconceito. Muito mais honesto seria assumirmos nosso preconceito e começarmos a trabalhar isso de forma clara. Negar a existência do preconceito não vai fazer com que ele suma, muito pelo contrário, vai fazer com que se enraíze ainda mais na nossa sociedade enquanto fazemos de conta que ele não existe.

Andei lendo no site da revista Crescer (http://revistacrescer.globo.com/) uma reportagem falando sobre a proibição do livro Caçadas de Pedrinho de Monteiro Lobato pelo CNE. A seguir a reportagem:

O jornal Folha de S. Paulo divulgou hoje que o CNE quer vetar a utilização do livro Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato, na rede pública de ensino, por considerar que contém mensagens racistas. A orientação aguarda agora a homologação ou não do ministro da educação Fernando Haddad, o que, segundo sua assessoria, não tem prazo para acontecer.

“Negra de estimação”. É assim que Monteiro Lobato apresenta ao mundo Tia Nastácia, a senhora que mora no Sítio do Picapau Amarelo, responsável pelos quitutes mais incríveis e apetitosos e por tantas histórias do folclore brasileiro que povoam o imaginário daquela família e de todos os leitores de Lobato. Por toda a obra, ela é citada como “preta” ou termos do tipo e, no livro Caçadas, o trecho: “Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou, que nem uma macaca de carvão” é o que mais incomoda o Conselho,de acordo com documento elaborado por causa de uma denúncia recebida na Secretaria de Promoção de Igualdade Racial.


Para a socióloga Lourdes Atié, consultora e coordenadora pedagógica do Prêmio VivaLeitura, a resolução é mais uma atitude pelo politicamente correto. “É a mesma discussão com os que querem alterar a cantiga Atirei o Pau no Gato ou mudar o final da história de Chapeuzinho Vermelho. Ignoram que os textos de Lobato pertencem a um contexto histórico e devem ser valorizados por representarem a cultura brasileira. Lobato é nosso patrimônio, faz parte das nossas raízes”, afirma. Maria José Nóbrega, coordenadora do curso de pós-graduação em língua portuguesa do Instituto Superior de Educação Vera Cruz, chama atenção não para as palavras usadas pelo escritor, mas do jeito que tanto Tia Nastácia como também Tio Barnabé eram tratados pelos moradores do Sítio. “São afetuosos e, acima de tudo, escutados. Isso é o que sempre mais me impressionou na obra: há uma interlocução, o negro tem voz e até mais do que hoje em tantas famílias. Podemos não mais chamar de “preto” ou “negro”, mas em muitos locais eles não são sequer escutados”, afirma. Márcia Camargos, que é escritora com pós-doutorado em história pela USP e especialista em Monteiro Lobato, concorda. “É negar o caráter educativo e pioneiro das histórias que trouxeram como uma das protagonistas Tia Nastácia, detentora do saber popular que aparece com destaque e voz própria ao longo das aventuras”, diz a consultora da GloboLivros, que atualmente publica toda a obra do escritor .


A preocupação com obras que incitem o preconceito pode até ser legítima em alguns casos, mas precisa de avaliação. Se o intuito for discutir os termos usados pelo autor, que praticamente criou a literatura infantil brasileira, isto pode acontecer com o texto em mãos. “Jamais uma obra como esta, um clássico, poderia ser proibida em qualquer lugar. Temos que continuar lendo Lobato, sempre. É possível, sim, ter uma boa conversa sobre o assunto, e assim estimular o senso crítico da criança em relação a um texto. Em vez de vir com moralismo, sugira novos pontos de vista. Que tal ler e conversar com a criança, fazendo perguntas como: por que será que eles se referiam com essas palavras a pessoas negras? Se fosse você, como falaria? Se ouvisse alguém falando assim com um amigo, como reagiria? E nunca deixar de valorizar toda a riqueza que as histórias de Lobato trazem a qualquer tipo de leitor”.


Para Márcia Camargos, ao contrário do que o CNE indica com esta ação, os professores não são incapazes nem despreparados para lidar com situações deste tipo. “Eles têm bom senso e critérios de julgamento para elaborar as informações, sendo que provavelmente cresceram lendo ou assistindo às aventuras do Sítio do Picapau Amarelo. Os alunos tampouco consistem em receptáculos sem autonomia nem valores. Aliás, Lobato defendia que a criança é dotada de inteligência e discernimento. Infantilizá-la, varrendo para debaixo do tapete temas polêmicos, é desprezar sua capacidade de escolha e minar o desenvolvimento do seu espírito crítico”, diz.

Pisaram no meu calo! Além de não concordar com a onda do politicamente correto, todos sabemos  que  Monteiro Lobato é um gênio da literatura infantil. Sou fã assumida desde antes de aprender a ler. Aos 6 anos ganhei a coleção todinha e guardo até hoje, apesar de estar bastante manipulada. Quero que Julia tenha a oportunidade de conhecer essa obra tão maravilhosa. E sinceramente não fiquei mais preconceituosa por causa da obra não! Eu sei que tenho preconceito, mas ele faz parte da nossa cultura, cabe a mim trabalhá-lo. E em relação à Julia, considero que é mais importante que ela tenha contato com essa obra tão fantástica, que conheça nossa cultura (com seus pontos positivos e negativos) e que aprenda a ter espírito crítico, que aliás é uma das grandes qualidades da obra de Monterio Lobato através da Emília. 

Sr. Ministro Fernando Haddad, por gentileza e por amor ao país, gaste seu tempo com questões relevantes para a educação de nossas crianças e jovens e não perca tempo com o barulho do politicamente correto. Não subestime a capacidade de nossos alunos e professores debaterem o assunto em sala de aula e tirarem da obra de Lobato tudo que ela tem de bom.

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2 comentários:

Anônimo disse...

Monteiro Lobato foi um homem de seu tempo, era racista sim, partilhava das idéias racistas em voga na época, tendo inclusive lamentado o fato de no Brasil não existir uma organização como a KKK, mas independemente de tudo isso era um gênio não há o que negar e não é censurando sua magnifica obra que iremos acabar com o racismo. Apenas deve-se propiciar uma leitura dentro do contexto e do pensamento do autor. Afinal Errar humanum est, e ele era simplesmente um homem repleto de erros, preconceitos como todos nós. Muito bom site, cheguei via agrega pais e achei bem provocante o texto, não é ofensivo como muitos textos que já li que se prestam ao trabalho de denunciar o politicamente correto, mas acabam esbarrando no politicamente escroto. Acima de tudo devemos respeitar a liberdade e a dignidade das pessoas.
Julio

Anônimo disse...

ainda bem que aqui não precisa logar .
vou ser sincero ,esse papo de politicamente correto enche o saco ,os indios e orientais são sabios pq procuram manter-se com seus pares e preservar sua cultura evitando assim serem descriminados e descriminar ,sabe onde existe o maior desrespeito a raça negra?na propria africa e vem dos proprios negros para com os seus proximos ,vide guerra civil em angola e como os governos de alguns paíse tratam seu povo ,inclusive o de angola , portanto racismo não existe e sim o desrespeito ao proximo em alguns casos usando a cor ou raça como pretexto para tal .