quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Agressividade X Combatividade


Julia é um doce de criança, mas quando quer uma coisa............ sai de baixo! Ela, na disputa com outras crianças, vai pra cima, não fica acuada nem quando o "opositor" é maior. Isso a Alê, professora dela ano passado, já tinha me dito. E esse ano, mal as aulas começaram, a Rozana, atual professora, já comentou comigo. Eu acho muito bom ela saber "brigar" pelo que quer. Brigar no sentido positivo. Mas fico muito preocupada com choros, birras, gritos, tapas, empurrões, mordidas..............

Ela não costuma agredir fisicamente, mas grita como ninguém. E toma o que quer da mão dos amiguinhos. Acho que toda mãe fica numa saia justa quando seu filho está disputando alguma coisa com um amiguinho e comigo não é diferente. Tento ensinar que tudo se consegue conversando e que é legal dividir, mas às vezes tenho a impressão que estou falando com as paredes.

Mas hoje, por acaso, achei um texto muito interessante da pedagoga Nereide Tolentino no site do Colégio Bialik. O texto é grande, vou tentar tirar as partes que achei mais interessantes.

As formas de relacionamento nos primeiros anos de vida podem marcar decisivamente nossas futuras relações com o mundo. A capacidade do adulto de lutar por seus objetivos, por exemplo, está muito ligada à maneira como a criança, a partir de 1 ano, 1 ano e meio, luta pelas suas coisas. Esse despertar da combatividade na criança pode criar situações incômodas. Porque, nesta fase, lutar é morder. E morder dói, deixa marcas. E os pais ficam muito encucados com isso. Se o filho morde: meu Deus, será que ele não vai ser violento? Se é mordido: então ele vai passar a vida deixando que os outros batam nele ?As primeiras manifestações da agressividade por parte da criança geram no adulto uma ansiedade muito grande. É que o adulto logo relaciona agressividade com violência. Mal a criança de 1 ano e meio morde o filho do vizinho, a mãe conclui: "ele vai achar que brigar é a solução." Quando, na verdade, isso nem passa pela cabeça da criança. Na grande maioria das vezes, ela apenas está querendo um determinado objeto e usando a sua combatividade para consegui-lo. É bom prestar atenção nessa palavra - combatividade. Porque no decorrer da vida, você vai encontrar muitos estudos sobre a agressividade como traço negativo na personalidade infantil. Agora, sobre a combatividade, que é canalização positiva da agressividade, você não vai achar praticamente nada em livro nenhum. E o resultado prático disso é que, com medo de que a agressividade vire violência, não se trabalha a combatividade da criança. E depois você vê aí muito gente, especialmente dessa nova geração, com problemas de timidez, de iniciativa, de relacionamento. Jovens inseguros que, diante dos obstáculos, caem fora, entregam barato, ou então partem para o autoritarismo e querem resolver tudo rápido e na marra.


Hummmmm, gostei do que li! Não é ruim que a criança brigue pelo que quer, mas cabe aos pais canalizar o combate!

Combater para conseguir o que quer: para sua formação, é fundamental para a criança saber que possui esta força - e esse direito. No entanto, veja a reação dos pais. O adulto já chega dizendo: "viu, seu feio, você machucou o Ricardinho! "Na verdade, intencionalmente a criança não fez nada disso. Mas, diante da reação do adulto, vai-se formando nela um sentimento de culpa em relação à vontade de querer as coisas. Eis o que se passa em sua cabeça: "eu sou feio porque quis isso, então eu não devo lutar pelas coisas, tenho mais é que esperar que alguém me dê". E teremos aí mais uma criança desestimulada a batalhar pelos seus objetivos. Agora, vamos supor que a criança esteja disputando alguma coisa (um chaveiro, o garfo, a caneta) com um adulto. Ela logo percebe que o adulto é forte, é grande, e que sua força interna no momento - a boca - não é nada contra aquele gigante. Então, o que ela faz? Faz birra. Grita, se deita no chão, bate o pé. É a única forma que ela encontra de manifestar sua força interna, sua capacidade de lutar por um objetivo - a chave do carro que o pai não quer dar. A birra é a mordida psicológica quando o inimigo é fisicamente mais forte. Em torno de um ano e meio de idade, a criança costuma se atirar no chão quando quer as coisas. Nessa faixa, é a única maneira de demonstrar sua força em relação ao que quer. Joga sua força inteira contra aquele obstáculo que para ela é a força maior - o adulto. E a sua força, naquela idade. Você já viu uma criança de 5 anos se atirando na rua para conseguir as coisas? Com um ano e meio, ela não só faz isso como não deve ser inibida no seu  jeito de se  manifestar. A  criança  não é  capaz  de  entender o seu  jeito  irritante de  se expressar. Ela sente que você está anulando é a força que ela está empregando para lutar pelo que quer. Os pais em geral não estão preparados para viver estes momentos. Nem para a birra, nem para a mordida. Na birra o componente social influi muito. Afinal, a criança dá escândalo; se atira no chão na frente das visitas, chuta a porta, derruba coisas no supermercado. Atitudes que para certos pais são apenas indicadores de má educação, de menino malcriado. Com a mordida é a mesma coisa. Que brigue, discuta, dê ou leve um tapa, tudo bem. Mas chegar em casa mordido já complica. A marca está ali, dolorosa, feia, começando a inchar. A reação dos pais: "mas como, nosso filho, tão pequeno, já é um saco de pancadas?" É fundamental, portanto, que os pais entendam a linguagem da criança em cada fase do seu desenvolvimento. Só assim eles vão ajudar a criança a se expressar através de maneiras mais maduras e civilizadas.
 
 

Quando a Julia faz birra eu procuro manter a calma, procuro dizer que entendo o que ela quer ou o que ela está sentindo, procuro validar os sentimentos dela. Mas explico que com birra não se consegue nada. Ah, mas nem sempre eu consigo manter a calma........ exatamente porque acho horrível criança fazendo birra. Está na hora de rever meus conceitos e encarar a birra de outro modo.

(...) o importante, repito, é a postura interna que neste momento está se formando: diante do obstáculo, a criança enfrenta com os meios de que dispõe, ou, reprimida, volta para trás. O importante é que o adulto permita o exercício da combatividade. Com os pais parece mais complicado. Chega no parquinho, mal o filho vai disputar um brinquedo com outra criança, a mãe corre ansiosamente em cima: empresta o carrinho para ele que ele logo devolve. Pronto, o problema foi resolvido, só que do ponto de vista do adulto, do ponto de vista social. Para a criança que ainda nem desenvolveu direito o sentido do tempo, não tem isso de “empresta um pouquinho que depois ele devolve, ela quer o brinquedo naquele momento. A pronta e ansiosa intervenção do adulto condiciona efetivamente a criança a depender dos outros para conseguir o que quer. Lá pelos 3 anos, esta criança chega choramingando para a mãe e se queixa de que quer um brinquedo e o amigo não quer dar. Então a mãe reclama que o filho vive na barra da saia dela, que não tem iniciativa, que os outros batem nele e ele não reage. Ora, quem ensinou isso? Quem condicionou que os objetivos daquela criança tinham que depender sempre do adulto? Quem não permitiu que ele pudesse disputar coisas, medir suas forças diante de um rival? Disputar era um direito dele. Hoje perder, amanhã ganhar, avaliar sua força - tudo isso é um grande aprendizado. A disputa é uma fase natural do desenvolvimento e, quanto menos o adulto gera ansiedade em cima dela, mais rapidamente ela passa.

Taí outro ponto em que vou ter que me reeducar. Eu costumo intervir quando a Julia entra numa disputa. Vou tentar deixar mais por conta dela, não quero minha filha "grudada na barra da minha saia". É um longo caminho a ser percorrido esse de manter a calma e não intervir.

Xingar também pode ser outro indicador de desenvolvimento. Chega uma fase em que a criança começa a responder a avó, xingar a vizinha. Os pais que sonham com um filho obediente e bem dentro dos padrões sociais, se preocupam: "então ele vai crescer assim? xingando todo mundo?" Claro que não vai. Não é só porque ele xinga aos 3 anos que ele vai xingar toda a vida. Mas nessa fase é meio inevitável: ele descobriu as forças da palavra. Descobriu que verbalmente pode expressar uma agressão de forma até mais eficiente que uma mordida. E vai repetindo palavras cujo significado nem entende - puta, merda, bobo... Ouviu por aí e sabe que contêm uma agressão.

Eita, já vou me preparar pra isso também. Porque já peguei a Julia xingando umas duas vezes. O "palavrão" que ela usa é "cocô".

A melhor atitude é sempre aquela que parte da compreensão da próxima fase do desenvolvimento da criança em matéria de expressão. Porque aí é possível ajudá-la a amadurecer para a etapa seguinte, mesmo sabendo que maturidade não é coisa que acontece de um dia para o outro.Duas crianças, por exemplo, estão brigando por uma boneca. Uma puxa, outra puxa, uma morde e a outra abre um berreiro. Normalmente minha postura é a seguinte: "olha, você não precisa morder, peça a boneca que ela lhe empresta." Amanhã ela vai chegar e pedir emprestado como eu sugeri? Claro que não. Se ela soubesse pedir, provavelmente teria pedido, não teria mordido. Mas, agindo desta maneira, eu estou canalizando: primeiro, a importância dela lutar pelo brinquedo e, segundo, a forma adequada de relação com o outro quando ambos querem a mesma coisa: o uso da palavra. Dependendo da idade da criança, pode-se até sugerir: "você brinca um pouquinho e depois empresta pra ela."E eu sei: amanhã aquela criança vai morder de novo para conseguir aquele brinquedo. Mesmo assim, é importante fazer com que ela desperte para a fase seguinte (verbal) sem ser inibida em seu estágio atual.

É exatamente isso de no dia seguinte a Julia fazer igualzinho que me dá a sensação de estar falando para as paredes, sensação de incompetência mesmo no meu papel de educar. Eu explico que basta pedir o que quer e ela continua tendo as mesmas atitudes e aí eu me frustro.

(...) não se pode alimentar expectativas em relação a uma atitude para a qual a criança não tem maturidade ainda. A expectativa do pai é que está errada, não a criança. Ela ainda não tem os conceitos de "peça, divida". Ela quer, vai em cima e morde quem se interpõe. Isso é básico para o adulto: ter consciência de onde a criança deve chegar e não querer que ela chegue lá antes da hora. Em cada fase, é saudável perceber como a criança está se valendo da força que tem no momento. A mesma coisa com o choro. A criança quer uma coisa e já vai abrindo um berreiro. Você diz: "não precisa chorar, eu dou." Amanhã ela vai chorar de novo? Claro que vai. Porque é teimosa? Não, apenas porque ainda não sabe dizer: "me dá água." Só por isso. Mas, ao ensiná-la a pedir, você está canalizando sua energia para a próxima situação. Um dia, em vez de chorar ela diz "me dá água" e você vai ver que foi muito importante tê-la ajudado a descobrir a força da palavra.

Ah, agora as coisas começam a clarear pra mim! Não é que eu seja incompetente para educar, é que ela ainda não alcançou maturidade suficiente pra agir como eu digo, mas vai alcançar! Isso é um alívio!

(...) O importante também é que a atitude do adulto seja sempre coerente. Se a criança chora por uma faca que não pode ter, não pode mesmo. E dar o motivo: "não dou a faca porque ela pode cortar o seu dedo, não precisa chorar desse jeito, por que você não brinca com uma coisa que não tem perigo?" E manter sempre essa mesma postura. A criança vai entender? Não. Mas aos poucos percebe que a negativa tem um motivo. "vai machucar" essa ainda não é um razão muito clara para a criança. Mas de alguma forma, ela vai entender que há uma razão. Que você não está negando por negar. Agora, se amanhã, para não ouvir mais um choro, você dá a faca, confunde tudo. Uma razão existe ou não existe. Vale ou não vale. Se pode dar, dê. Não pode, não dê. Nem hoje, nem amanhã, nem por bem, nem por birra.A primeira infância é fundamental para a formação da personalidade. Muito pai diz que a criança é fácil levar. É fácil porque você é a força. Mas a força da criança existe. Se não for bem compreendida, respeitada, canalizada, vai estourar de um jeito torto na adolescência ou mesmo na vida adulta. 

Coerência e segurança no que estou dizendo e fazendo sempre! Calma, paciência, compreensão. Educar criança não é nada fácil!!!!
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