quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Falando (mal) de novo do Politicamente Correto

Já falei aqui que acho a história do politicamente correto uma hipocrisia. Grande, por sinal! Aí achei no site Educar para Crescer um artigo da Lya Luft sobre  a onda do politicamente correto nas histórias e cantigas infantis. Sou obrigada a concordar com ela! A versão politicamente correta de Atirei o pau no gato me dá agonia (principalmente cantada pelo gatinho no XSPB 3).

Tenho observado alguns esforços psicopedagógicos no sentido de tornar nossas crianças politicamente corretas - postura que muitas vezes nos transforma em seres tediosos, sem graça nem fervor. Contos de fadas, por exemplo, alimento da minha alma de criança, raiz de quase toda a minha obra adulta, sobretudo romances e contos, foram originalmente - dizem estudiosos -narrativas populares, orais, de povos muito antigos. Assim eles representavam e tentavam controlar seus medos e dúvidas, carentes das quase excessivas informações científicas de que hoje dispomos. Nascimento e morte, sexo, sol e lua, raios e trovões, o brotar das colheitas lhes pareciam misteriosos, portanto fascinantes.

(...)

Porém, faz algum tempo, há um movimento para reformular tais relatos, tirando-lhes sua essência, isto é, o misterioso e até o assustador. Lobos seriam bobalhões e vovozinhas umas pândegas, só existiriam fadas boas, e as bruxas, ah, essas passam a ser velhotas azaradas. Até cantigas de roda seculares tendem a ser distorcidas, pois atirar um pau num gato é uma crueldade, como se fosse preciso explicar isso para as crianças saberem que animais a gente ama e cuida - se é assim que se faz em casa.

Vejo em tudo isso um engano e um atraso. Impedindo nossas crianças do natural contato com essas antiquíssimas histórias, que retratam as possibilidades boas e negativas do mundo, nós as deixamos despreparadas para a vida, cujos perigos entram hoje em seus quartos, rondam escolas e clubes, esperam na esquina com um revólver na mão de um drogado, ou de um psicopata lúcido e frio, sem falar nos insidiosos pedófilos na internet.

(...)a alma humana busca a expectativa, o segredo e o susto. Precisa conhecer o mal para se acautelar e se proteger, o belo e o bom para crescer com esperança. Mas nós, pedagogos e pais, nem sempre seguros e informados, começamos a querer alisar excessivamente a estrada para eles, não lhes ensinando que o mal existe, assim como o bem, que o belo nos atrai, assim como o monstruoso, e que é preciso desenvolver discernimento (gosto dessa palavra), isto é, a capacidade de entender e distinguir o melhor do pior, a fim de fazer com mais clareza e segurança as inevitáveis escolhas.

Precisa de mais argumentos? Acredito que não. As experiências da infância vão moldar o adulto do futuro. Ele precisa ser bom e fazer o bem, mas precisa saber que o mal existe, pra se defender dele e pra combatê-lo.



Há algum tempo andou circulando pela internet um email que falava mal de nossas cantigas de ninar. Comparava com as americanas (reino do politicamente correto) que são singelas. As nossas tem boi da cara preta, cuca e outros diversos personagens de nosso folclore. Alguém aqui é traumatizado porque adormeceu ao som de "Boi da Cara Preta, pega esse menino que tem medo de careta"? Eu não! E canto pra Julia quando tenho vontade. Quero que ela seja uma adulta equilibrada, que saiba enfrentar seus medos e saiba discernir (com bem disse Lya Luft) o bem do mal!
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