segunda-feira, 11 de março de 2013

Um pequeno conto sobre o atendimento hospitalar no Brasil

Era uma vez uma moça que tinha uma mãe idosa que, devido à demência avançada, já não sabia se comunicar e também não entendia mais o mundo ao seu redor.

Um dia, a senhora idosa (vamos chamá-la de D. Maria) parou de urinar e a filha, suspeitando de infecção urinária, resolveu levá-la ao hospital. Lá chegando, D. Maria ficou na emergência, sendo atendida rapidamente porque o médico da família interviu para que o atendimento fosse rápido. 

Dentre os exames que o médico da emergência solicitou, havia um rx de tórax. Entre o pedido do rx e virem buscar D. Maria para fazer, passou-se 1 hora. A informação que davam no hospital é que estava demorando por causa de outros pacientes que estavam no setor de radiologia antes, esperando atendimento, mas a filha de D. Maria sabia que não havia pacientes esperando pois já era de noite (quando o movimento diminui) e ela tinha ido ao setor de radiologia levar a solicitação do médico assim que o exame foi solicitado e viu que não tinha paciente nenhum e as recepcionistas estavam conversando amenidades.

Enfim D. Maria foi levada para fazer o rx. Os outros exames (sangue e urina) já haviam sido colhidos e todos aguardavam os resultados para fechar o diagnóstico e decidir pela internação. Passaram-se 3 horas, passaram-se 4 horas desde que D. Maria deu entrada no hospital e nada dos resultados dos exames chegarem. A enfermeira cobrava do laboratório e ninguém vinha entregar os resultados. Enquanto isso, D. Maria não podia ser medicada. Até que 6 horas depois de D. Maria ter dado entrada no hospital, o médico da família voltou para ver como as coisas estavam, a pedido da filha de D. Maria. Quando ele chegou e perguntou pelos exames, rapidamente liberaram os resultados dos mesmos que já estavam prontos há muito tempo. O médico da emergência optou por interná-la.

Uma enfermeira muito solícita então sentou-se com a filha de D. Maria para fazer uma anamnese para a internação de D. Maria. A filha então informou sobre o estado de saúde geral de D. Maria, cirurgias que já havia feito e das capacidades de executar tarefas diárias. Informou que D. Maria não falava mais, que não compreendia na maior parte do tempo o que estava ocorrendo a sua volta, que usava fraldas geriátricas, não andava, mas que era capaz de deglutir, tendo uma alimentação principalmente líquida e pastosa (mastigava somente "por esporte" um biscoitinho ou uma rapadura - sempre fora louca por doces e não era diabética).

D. Maria foi então finalmente internada. Aliás "internada" pois não havia leitos disponíveis no hospital e ela permaneceu onde estava, na emergência. O médico da família ainda procurou vaga em outros 4 hospitais da região, mas não havia vaga em nenhum deles. A pessoa que ficou acompanhando D. Maria naquela noite, passou a noite inteira sentada em uma cadeira no corredor. Não havia condições de deixá-la sozinha, seria desumano demais.

No dia seguinte, a acompanhante de D. Maria teve direito ao café da manhã no hospital, afinal ela era acompanhante de uma paciente internada (apesar de estar "internada" na emergência). Mas o café da manhã de D. Maria não veio e quando a acompanhante foi perguntar ao pessoal da enfermagem pelo café da manhã da paciente, ouviu a seguinte resposta: "e ela come?"

A acompanhante ficou de queixo caído, ninguém havia se dado ao trabalho de ler o prontuário da paciente. Muito menos de observar se a paciente estava com sonda gástrica para alimentação. Se não tivesse um acompanhante com D. Maria, a senhora de mais de 70 anos que tinha um organismo já fragilizado e que estava se tratando de uma infecção severa, teria passado fome dentro do hospital. Quando o café da manhã chegou, não veio de acordo com as informações fornecidas pela filha de D. Maria. Veio café com leite e torradas pra uma senhora que não era capaz de comer com as próprias mãos e que tinha alimentação predominantemente líquida ou pastosa.

Mais tarde, o médico da família passou novamente no hospital e com seu prestígio conseguiu que o primeiro leito liberado no dia (paciente de alta) fosse destinado à D. Maria. Entre o momento em que a família foi informada que o leito estava liberado e já arrumado para a paciente e o momento em que a paciente chegou ao leito, passou-se 1 hora de espera. O porquê dessa demora é um mistério....

Imediatamente antes de sair da emergência, D. Maria teve sua pressão medida por 3 vezes (era difícil medir pois ela não coopera, não entende o que está se passando e não estica mais os braços pois está com as articulações todas rígidas). Nas 3 vezes o valor foi o mesmo, 12x8. Assim que D. Maria chegou ao leito, a auxiliar de enfermagem do posto veio novamente medir a pressão de D. Maria. A filha então pediu que não fosse medida pois estava normal, anotada no prontuário e havia sido informado verbalmente para ela (a filha presenciou). A auxiliar achou ruim pois era o protocolo. Protocolos existem mesmo, mas também tem que existir humanização no atendimento, né? A filha então conversou com a enfermeira e se responsabilizou por não medirem a pressão de D. Maria naquele momento. 

Isso era um sábado de manhã. D. Maria havia sido avaliada e medicada pelo médico da emergência na sexta feira à noite. Passou-se o fim de semana inteiro sem que nenhum médico fosse avaliá-la. A prescrição feita na emergência foi simplesmente repetida e somente na segunda-feira à noite o médico responsável foi vê-la. Questionado sobre o porque de não ter ido vê-la no fim de semana, o médico informou que o posto de enfermagem estava ciente que ele não iria ao hospital no fim de semana e orientado a passar todos os pacientes para o outro médico que estaria no fim de semana. Na segunda-feira mesmo, a filha foi questionar no posto de enfermagem, porque a fisioterapeuta havia passado no leito de D. Maria e dito que voltava já pra fazer a sessão nela e não havia voltado. Ela precisa fazer fisioterapia por causa de toda a rigidez das articulações que tem. A auxiliar de enfermagem então, disse que a fisioterapeuta passaria em instantes. Após mais de meia hora, a filha de D. Maria foi novamente solicitar a fisioterapeuta e recebeu a resposta de que não havia fisioterapia solicitada para ela. A filha então questionou porque a fisioterapeuta foi até o leito ver a paciente e recebeu como resposta: "foi um engano..." Ainda bem que não foi uma auxiliar de enfermagem com uma medicação para outro paciente que se enganou, né?

Enquanto D. Maria estava internada, apareceu um edema em sua coxa, próximo ao quadril. A acompanhante de D. Maria suspeitou que fosse causado por uma fratura ou luxação pois ao passarem a sonda para colher a urina dela na emergência, abriram as pernas dela mais que o limite que era feito em casa. A filha de D. Maria então pediu novamente a intervenção do médico da família que pediu a um colega traumatologista, que estava de plantão na emergência do mesmo hospital, que solicitasse um rx. O rx foi feito e o médico da família passou no hospital para avaliar. Graças à Deus estava tudo bem. Mas o médico assistente, ao procurar o rx no prontuário para avaliar também (afinal cabia a ele definir a alta de D. Maria), não conseguiu localizar o exame e teve que ligar para o médico da família para saber o que o rx havia evidenciado.

Depois de 1 semana, o médico achou que já era hora de dar alta para D. Maria. Mas para concluir que ela podia ir pra casa, solicitou novamente exames de sangue e urina para avaliar se a infecção havia cedido. Vieram ao leito colher o exame de sangue logo após a solicitação do médico, mas pediram que a acompanhante mais tarde lembrasse que ainda faltava o exame de urina e cobrasse que alguém viesse colher. Existe isso??? Enfim D. Maria teve alta. Foi uma semana de tensão em que as acompanhantes de D. Maria não podiam relaxar nem por um instante, atentas a tudo que estava sendo feito com ela para que não ocorressem outros "enganos". Graças à Deus, o final dessa história foi feliz. D. Maria está em casa, curada da infecção.

Imagem retirada de: http://www.marxismo.org.br


Com certeza essa é uma triste realidade vivida por muitas pessoas que passam pelo sistema hospitalar brasileiro, tanto em grandes como em pequenas cidades. Claro que o  "conto" infelizmente não é um obra de ficção. O que admira é que não foi em nossos hospitais públicos sucateados. O acontecido, pasmem, foi em um dos melhores hospitais particulares da cidade. Nem pagando caro (convênio médico de primeira linha) têm-se um atendimento digno e eficiente. Lamentável...

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

2 comentários:

Myriam Scotti disse...

Eu fiquei muito aflita achando que essa historia teria um triste fim, como a maioria dos nossos brasileiros que não têm condições de pagar um plano de saúde. Apesar de que, quando precisei da emergência do meu, eu me snti no SUS. Um total descaso...imagina o que essa pobre senhora passou!

Denisy Prado disse...

Agora vc imagina que vc ainda tinha um médico na família, que além de ajudar nas informações, tb conhece outros médicos que podem auxiliar...Imagina quem fica por conta própria, sem ter a quem pedir ajuda e os outros milhares que ainda dependem só do SUS !!! Nesses casos, só podemos contar com a sorte...