segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Mãe de UTINEO

Uma das experiências mais difíceis e confusas da minha vida foi ser mãe de UTINEO. Essa foi uma experiência que com certeza deixou marcas e que eu nunca vou esquecer.

A primeira vez que entrei na UTINEO eu estava passando muito mal. Vi a Alice por poucos minutos, toquei seu corpinho magro pelos buraquinhos da encubadora e tive que sair de lá pois fiquei me sentindo ainda pior.

Nos dias seguintes, eu entrava e mal conseguia respirar, achava o ar quente e sentia como se eu não conseguisse puxar o ar através da máscara, logo eu que trabalhei de máscara durante muitos anos! Eu olhava para a Alice tão indefesa ali dentro da encubadora e queria tirá-la de lá, levar comigo, dar colo. Mas tudo que eu ouvia era: quanto menos manipulada ela for, melhor pra ela. E acho que o fato de não poder ficar com ela no colo, me fazia sentir como se não fosse minha filha... era um misto de sentimentos opostos. Quem me ajudou bastante nesse período foi a pediatra das meninas. Ela é um amor de pessoa e dá plantão na UTINEO onde a Alice estava. Além de ter feito a sala de parto e estar acompanhando a Alice de perto, ela ainda sentava comigo para conversar como mãe, como um ombro amigo, como alguém que já tinha passado por essa experiência (ela teve duas filhas prematuras, entendia perfeitamente como eu me sentia).

E eu me sentia tão estranha e confusa, que não perguntava nem o peso dela como estava. Eu sabia que ela só teria alta com no mínimo 1,800kg mas eu não sabia nem se ela já tinha parado de perder peso e o quanto tinha perdido. Quando eu chegava em casa, só fazia chorar e várias e várias vezes a Julia (uma criança iluminada, com certeza) me consolou dizendo que sabia que a irmã estava bem e que viria logo para casa, que eu não deveria me preocupar. 

Os dias foram se passando e eu não me sentia parte daquele ambiente. Tudo era estranho e assustador. Eu entrava, passava uns minutos e saía, até porque ela ficava o tempo todo dentro da encubadora, eu sentia que não tinha o que fazer ali. Até que quando ela estava com 07 dias de nascida, conversando com uma amiga, mãe de uma amiguinha da Julia da escola, ela me disse que eu ficasse o máximo de tempo que eu pudesse dentro da UTINEO para que eu fosse me habituando à rotina da Alice e fosse me sentindo mãe dela. Esse foi o melhor conselho que eu poderia ter recebido naquele momento e ainda, para me ajudar, levou a Julia para passar o dia na casa dela.



Nesse dia, passei a tarde inteira na UTINEO. Cheguei, peguei uma cadeira de balanço e me sentei ao lado da encubadora. Fiquei observando a Alice, fazendo carinho, cantando as canções de ninar que canto para a Julia e que ela ouviu durante toda a gravidez. Observei troca de fralda, higienização do umbigo, a alimentação dela... e aí que numa determinada troca de fraldas, a auxiliar de enfermagem que estava responsável por ela naquele dia, deixou a Alice no meu colo por uns minutos. Foi um dos momentos mais felizes da minha vida! Ela era tão pequeninha que era até difícil segurar, mas eu estava tão feliz, não parava de sorrir. Nesse dia, ao contrário dos outros, eu não cheguei em casa chorando, eu cheguei em casa sorrindo. Pela primeira vez pude sentir que eu tinha duas filhas e o olhar dela pra mim, aqueles olhinhos me encarando, foi a imagem que embalou meu sono durante as noites seguintes até a alta dela. Daí por diante, o ambiente da UTINEO foi ficando menos assustador e fomos desenvolvendo o vínculo mãe-bebê. Eu comecei a passar mais tempo lá, comecei a entender as rotinas, os monitores. Comecei a conhecer melhor as pessoas que cuidavam da minha pequena fofolete e meu sentimento que era de levá-la pra casa de qualquer maneira, mudou para levá-la pra casa o mais rápido possível, mas com a segurança de que ela estaria bem.


Com o passar dos dias, minha rotina ficou ainda mais pesada: eu tinha, durante o dia, que ir ao hospital de 3 em 3 horas para a alimentação dela. Ela estava em dieta de transição (parte via oral e parte via sonda) e eu fazia questão de estar presente para oferecer a dieta. Ela estava tomando pregomin na chuquinha (depois falo sobre a amamentação, esse meu calo) mas eu fazia questão de dar. Enquanto isso, não podia negligenciar a Julia que estava de férias. E viva a colônia de férias que me permitia ficar tranquila durante as tardes me dedicando à Alice! Foi um período muito cansativo, meu corpo doía à noite, mas vendo o progresso da Alice eu ficava feliz. Eu também comecei a entender que a situação dela era muito boa. Ela ficou para ganhar peso na UTINEO e graças à Deus não teve nenhuma intercorrência. Mesmo tendo nascido tão pequena, o desenvolvimento dela foi muito bom, não desenvolveu nenhuma infecção, não tinha perda de saturação, nada que pudesse comprometer e ganhou peso dentro do esperado e isso me animava muito.

Até que depois de 19 longos dias, Alice finalmente teve alta! Esse dia ficou marcado com um dos dias mais felizes da minha vida, com certeza. Foi um misto de felicidade a apreensão, afinal de contas dali pra frente era comigo, aquele serzinho não teria mais o suporte de monitores, olhos treinados e mãos eficientes que sabem o que fazem. Teria apenas o amor de mãe que procurava fazer o melhor, embora com medo. Mas estamos nos saindo bem. Alice está com 1 mês e 19 dias de vida, está cada dia mais "gordinha" e mais esperta. Impressionante o desenvolvimento dela. Mas jamais vou me esquecer dos dias de UTINEO onde medo e esperança se misturam dentro do coração da gente.
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